PROJETO FLÓRIDA: Um dos filmes mais interessantes da temporada, que foi esnobado no Oscars 2018. A vida nua e crua, sem roteiro.

Drama com fundo de comédia, ou comédia com fundo de drama. Em Projeto Flórida, Sean Baker, diretor do ótimo “Tangerine” (filme de 2015 que foi sucesso no circuito mais alternativo, rodado com um iPhone 6), mostra a realidade de uma parcela da população esquecida.

Sinopse:

Moonee (Brooklynn Prince) é uma agitada garotinha de seis anos, que passa seu tempo aprontando pela vizinhança do motel onde mora, nas redondezas dos parques Disney. Ela vive com a mãe Halley (Bria Vinaite) numa hospedagem de beira de estrada. As duas contam com o apoio do gerente Bobby (Willem Dafoe) na batalha diária pela sobrevivência com poucos recursos e muitos riscos.

Vida Real

De forma orgânica, com uma câmera na mão e como se não houvesse roteiro. Sean Baker abusa da criatividade e originalidade ao expor de maneira crua a rotina de um espaço geográfico do subúrbio de Orlando e seus habitantes.

Centrado na vida de uma jovem mãe, Halley (Bria Vinaite) e sua filha Moonee (Brooklynn Prince), o roteiro acompanha os atos inconsequentes das personagens de forma natural e livre de julgamentos.

Estudo de Personagens

Halley, uma mulher que parece ter se perdido na vida, que não consegue se sustentar e apela para “pequenos” atos ilícitos, mas que, do jeito dela, tenta dar o melhor para a filha. Moonee, por sua vez, é fruto do seu meio, garota extremamente levada e atrevida, que vive a provocar confusão por onde passa.

A história se passa em um hotel simples, uma hospedagem barata de beira estrada que é administrada por Bobby, responsável por todos os tipos de afazeres no local e também por pôr ordem no recinto. Homem simples e dedicado, Bobby estabelece uma relação de empatia e carinho com os “hóspedes”, resolvendo todos os problemas e fazendo o que pode para ajudar.


Fundo Sociopolítico

Projeto Flórida é mais um filme da temporada a falar do arquétipo do “white trash” termo depreciativo originário dos Estados Unidos, que se refere à americanos brancos, pobres, sem instrução, que vivem em comunidades economicamente decadentes. “Eu, Tonya” e “Três Anúncios Para Um Crime” também se encaixam nessa realidade. Uma verdade inconveniente para a América.


O retrato da pobreza através da perspectiva infantil, é o grande trunfo do longa. Sean Baker mostra, com sensibilidade única, a realidade vista pelos olhos de uma criança de 6 anos que não tem maturidade para entender os perigos aos quais é exposta. A percepção inconsequente e lúdica de Moonee é captada com maestria. Mérito também, para o talento da pequena Brooklynn Prince, atriz mirim que faz a espontaneidade e carisma saltarem da tela.

A Geografia das Coisas

O filme se passa nos arredores do motel Magic Castle que, ironicamente, se confunde (só no nome) com o parque da Disney, Magic Kingdom, localizado ali perto. Mas diferente do grande “Reino”, neste “castelo”, famílias inteiras vivem em situação decadente e se aglomeram em quartos que mal podem pagar.

Resta à Moonee vagar com seus amigos por casas abandonadas, comer de tudo no fast-food (quando sua mãe consegue dinheiro), brincar sobre a forma das árvores e correr para ver os fogos da Disney de longe. Projeto Flórida é isso. É a beleza da pureza e da imaginação de uma criança.

___________________________________________________

Indicado ao Oscar 2018, apenas na categoria de Melhor Ator Coadjuvante para Willem Dafoe, brilhante em seu papel, Projeto Flórida merecia muito mais! O Reino mágico de Moonee em tons de roxo e cores pastéis. Construído com muita imaginação e inocência.


Por, @diogolimma